segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sua voz

Ela lembra exatamente daquela tarde em que os pais trouxeram para casa  Edith - a babá jeitosa com crianças.
Edith era uma pessoa de total confiança e tomaria conta das meninas enquanto a mãe e o pai viajaram para a capital a fim de fazer exames médicos. Eram três meninas na história. Ela a mais velha que deveria ter uns seis anos de vida e a menor ainda era um bebê de colo.
Edith fez de tudo para que as meninas não notassem a ausência da família. E entre as suas realizações estava uma casinha com gravetos cravados no solo. A emoção maior da vida dela...Por muito tempo esta lembrança esteve bem marcada em seus pensamentos bons. Uma criança é sempre uma alma aberta e o bem reflete com tal brilho que a criança exulta e se sente feliz.
O lugar delas era um sonho. Os sonhos melhores são simples. Aquele lugar era o paraíso dela. Quando lembrava dele vinha à mente o vale, o riozinho de água doce que passava no fundo da propriedade, a casinha de madeira, a estrada de terra,  o gramado verde, o cavalo baio, a vaca que dava leite para o café da manhã, os móveis amarelos, o rádio de pilha que ficava na prateleira bem no alto, o fogão a lenha e os pés de cinamomo.
A mente dela era um lugar habitado por tantas belezas, livre de incertezas, um lugar de extrema felicidade. Ela uma mocinha magrinha, de franja, introspectiva em seu modo de ser mas com uma vivência interior repleta de brilho e sonhos sem fim. A irmã era sua companheira no dia a dia, nas brincadeiras, naquelas tardes boas de lembrar.
A mãe de cabelos armados, alta, magra, de olhar triste e de dores. Guardava no coração tanta agonia, era uma pessoa aflita pela condição em que estava de se saber doente e pela grande mágoa que o seu marido alimentava de seus pais. Eternas discussões e brigas que fazem tanto mal aos ouvidos infantis. Seus pais, moravam perto dali  bastava atravessar a estrada. Eram gente simples do campo, gente que nutria grandes amizades pela vizinhança e sempre muito questionados em razão do falatório do genro julgando-o por não ter ajudado a filha no que se relacionava á saúde dela. 
Um homem de coração bom na sua aparência  mas de sentimentos ruins em relação à vida. Sempre com mágoas recolhidas, sempre insatisfeito, nunca do lado da cordialidade. Todos sabiam que detestava o sogro, condenava-o por não ter cuidado da esposa  quando ainda jovem e quando apresentou um tumor no seio. Diante das netas, comentava e culpava os pais de sua mulher pelo câncer que ela teve e que lhe ceifou a vida tão jovem.
Aquele lugar era de uma natureza exageradamente bela. Pelo menos, aos olhos dela. A vida era o melhor ali. Vida de simplicidade, de pouca história, de muita luta, de rotina, o trabalho no campo e a fartura. Roçar a lavoura, buscar água na nascente, não deixar o mato tomar conta da propriedade, criar a tratar os porcos, levar os bois ao pasto, prender uma corda nos galhos do cinamomo para balançar as crianças, rachar lenha para os dias frios.
Sim. Lembrei daquela gente! 
Lembrei dos laços, de poucos abraços, de dias frios e tempos quentes.
Aquela gente que ali estava vivendo sua vida e buscando na terra o sustento. Nem muito diálogo, nem muitos sonhos, poucas perspectivas, poucas demonstrações de qualquer afeto mas uma riqueza de lugares e folhas e matas e cantoria e verdes  encantamentos.
Bom era correr pelo campo molhando os pés no orvalho, acordar feliz e tomar o leite da vaquinha sem pensar em nada no que se refere á vida. Sem pensar em ideais, perspectivas de futuro, sem sonhar viagens ou roupas de grife mas brincar a manhã toda com a irmã no gramado verde.
Ela era essa  menina feliz no paraíso dela. O mundo se resumia àquele pequeno lugar e o horizonte mostrava que ali era o final do seu mundo pequeno feito de todos os sonhos e de toda a felicidade possível.
No coração da menina que corria pelo gramado não havia dissabores, nem dores, nem tempestades. Ela era um pedaço daquele lugar e vivia bem feliz!



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