segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Exatamente às cinco...

A estrada era de terra. E o ônibus vinha buzinando. Podiam saber que era exatamente cinco horas da tarde. Logo o sol se esconderia e os lampiões à querosene iluminariam as casas. Naquela tarde elas estavam ansiosas porque os pais chegariam da viagem. Haviam ido para a capital e deixado as meninas com uma babá. 
Nem por um momento sequer perguntaram pelos pais. Edith tinha sido uma babá tão boa, tão amiga, tão presente que com a chegada deles bateu até uma tristeza sabendo que seria o último dia dela. 
E quando as lágrimas da mãe foram vistas pelas meninas  ficaram assustadas. O que teria acontecido? Imaginaram que o passeio faria bem, que conhecer a capital do estado seria prazeroso, mas não foi. Ver a mãe chorando foi algo assustador.
O pior havia acontecido. Mas o quê? logo o pai foi dizendo: - Sua mãe descobriu que está doente - a vida é assim.
Nada mais se disse além daquelas palavras. Sobre a doença lembrei que a mãe ficava a  chorar de vez em quando. Mas para elas o mundo tinha um prisma que ia além das dores e elas viviam seu mundo de tranquilidade, de correrias e alegrias infantis. 
A brincadeira favorita era "a casinha"...A brincadeira perigosa era o "pega-pega"... A parte mais gostosa era quando a mãe chamava para comerem pão caseiro com melado...Que delícia era o lanche no meio da brincadeira! Assim os dias eram preenchidos.
Todas as tardes quando o ônibus amarelo vinha buzinando e anunciando o entardecer a menina ouvia o pai dizer: - Sua mãe descobriu que está doente! Palavras poucas que martelavam na sua cabeça e começavam a mostrar que a complexidade da vida iria se mostrar mais cedo ou mais tarde.
Não demorou muito e um dia a mãe a levou na loja de secos e molhados do Sr Cleonézio. Escolheu alguns panos e lhe disse que para ela faria vestidinhos. Também foi lhe falando da vida na cidade, das oportunidades que teria se fosse viver na cidade e da escola da cidade...
A mãe costurou alguns vestidinhos para ela. Tão bonitos. Ela já sabia que um dia não estaria mais ali no seu paraíso. Já haviam lhe dito que primeiro seria ela , por ser a mais velha, pro ser a primeira...que iria morar na casa da tia, lá na cidade e teria maiores oportunidades.
Pelo seu temperamento tímido nunca ousou demonstrar seus desejos ou vontades. Não argumentou, não questionou e num dia qualquer ficou sabendo que deixaria a casa dos pais, deixaria a irmã das brincadeiras, deixaria o cavalo baio, a vaquinha do seu copo de leite, o lugar da correria, a rampa do gramado onde deslizava feliz, o balanço do cinamomo, o riozinho, os sonhos daquele lugar e iria para tão longe, para um lugar tão distante de tudo e seria tão feliz com os tios e a prima. 
Nada dizia. Apenas sentia no seu coração a tristeza de deixar o seu paraíso e os seus amores.
Gostava tanto da escola ali na roça...a professora Emília, o seu caderno, a cartilha que lia com alegria "Olavo viu Élida! Élida viu Olavo"... Gostava tanto de andar pela grama úmida no orvalho das manhãs a fim de estudar na escolinha. A mãe lhe fizera uma bolsa de pano onde levava seu lápis e seu caderno. 
E no outro dia muito cedo...ela estava lá na estrada aguardando o ônibus amarelo que a levaria. O pai acompanhava. Dizia que quando chegassem na primeira cidade lhe compraria balas. E da janela do ônibus na estrada poeirenta ela viu a sua irmãzinha que foi ficando no lugar , ficando até desaparecer na curva da estrada de terra.
A lição mais forte que aprendia era calar-se. Ao não entender os motivos era o melhor a fazer. Calando as palavras , controlando seus sentimentos teria como enfrentar seus gigantescos medos que borbulhavam dentro de si. 
Nada argumentava, nada dizia, apenas a obediência. Ela era uma criança assim. Os tempos também eram outros. 
De nada valiam as palavras, pouco valiam os argumentos quando não havia explicações convincentes. Para certas circunstâncias da vida, quando não se podia mudar o resultado da equação, não havia o que dizer. Era preciso aceitar e viver.
E no fim do dia estava diante da casa da tia. Uma menininha assustada, perdida, atrapalhada. Uma menininha em total solidão da alma. 
E o pai despediu-se com um "fique bem e obedeça" e voltou ao seu lugar! 




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