quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

E foi buscando sua alma .. .

Diferente dos dias atuais quando a maioria dos pais dão as coisas  prontas aos filhos e eles não são ensinados  resolver seus problemas... ela sentiu na pele cada dia a necessidade de se encontrar consigo mesma. Era sempre um desafio novo aprender o que podia fazer, o que não lhe era permitido, o que alegraria os outros, o que faria ou deixaria de fazer, quais as consequências dos seus atos e qual a melhor forma de ir melhorando a cada dia.
As pessoas talvez estivessem conversando com ela e tentando preencher-lhe seus vazios. Mas ela não percebia isso porque sua dor era tanta e o fato de ter sido arrancada de seu lugar a deixava tão perplexa, tão insegura ,que nem ao menos entendia que alguém se interessava pela sua alegria.

O que lhe faltava era chão, saber que ali era o seu lugar, que podia acreditar na  segurança de alguém da família que faria  algo por ela. Na sua cabeça entendia que de agora em diante era preciso lutar por suas próprias coisas. Era preciso buscar o seu lugar. Uma sensação de não ser de ninguém, de não ter dono, de estar à mercê de sua própria sorte o que lhe aumentava medos e trazia pânico. Para ela todas aquelas coisas não aconteciam com mais ninguém, era coisa dela, era só com ela.  E naquele instante encarava a vida com muita ansiedade, vontade de acertar todas as coisas, de ajudar bastante as pessoas para ter o reconhecimento delas, ter o seu lugar.  A vida dela tinha sempre duas faces. Um desejo de partir dali, um desejo de ficar e provar que faria o seu melhor. 
E no primeiro sábado longe de casa a prima foi com ela na praça central da cidade e lhe mostrou um lago com peixinhos e deram farelo de pão aos peixes e escreveu uma carta para sua irmã contando sua alegria de estar ali e conhecer estas coisas novas. 
E começou a aprender que nem tudo pode ser tão ruim e nem sempre pode ser tão bom. Que as marés acontecem pela vida e que o diferencial está na força interior de cada um. E foi buscando a sua alma...
Ao anoitecer cansada e feliz lembrou as dores da sua mãe distante. Tinha ouvido falar que um dia voltaria lá para vê-la e que quando chegassem as férias o pai viria buscá-la. Havia algo bom em que se pensar. 
Estava chegando o dia de ir à escola e a agonia dessa espera lhe tomava conta do coração.
Numa tarde qualquer a tia e a prima levaram-na para comprar sapatinho preto e meias brancas para o uniforme escolar. E voltou para casa tão feliz com sua meia três quartos com pompom. 
Ao chegar em casa ajudou a prima a lustrar o assoalho, tirar o pó dos móveis e secar a louça do jantar.
Não via a hora de conhecer sua escola nova. Dava até orgulho de estar ali.

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