terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Bastava estar ali

Ela estava ali. O lugar, as pessoas, o cheiro, o jeito, a paisagem tudo era desconhecido.Imagine-se distante de tudo o que você viveu até então.  Imagine-se sem a casa que você achava que era o seu lugar. Sem a família que você conhecia como a sua família. Imagine-se ter suas irmãs e de repente perceber que não vai mais estar ali com elas. Que não vai conviver ali com elas. Que aquilo tudo vivenciado ficara em algum lugar para ser deixado. Talvez as lembranças. Parecia que o coração não podia ser levado em conta. Parecia que a lição era do "não amar", do "não se importar", do "tem que ser assim" precisava ser enraizada na alma. Não havia nem porque discordar disso. Faltava o questionamento, a coragem para as perguntas. Conformava-se. Era a vida dela naquele instante. Uma distancia incontrolável de tudo o que tinha sido até então e uma necessidade de se reconhecer de agora em diante. A vida estava impondo esta verdade e ela estava atônita mas ao mesmo tempo conformada com a sua situação e com esse distanciamento que a vida lhe impunha.
A tia parecia ser boazinha. Falava bem da prima e disseram-lhe que ali a vida era boa, que havia milhões de coisas para conhecer, que ela ia adorar a nova casa, o novo lar, a nova família, o novo céu, a nova paisagem. E ela acreditava. Em tudo acreditou. Seu quarto foi apresentado. Havia uma cama bem arrumadinha e uma janela que dava para um quintal interno. Já era noite e logo então a família foi dormir. Ela ficou ali naquele lugar completamente só, havia esquecido onde eram os outros quartos, havia entendido que mesmo se tivesse medo deveria se calar e aguentar firme que a noite iria passar e o dia nasceria para ela. 
E foi dormir tremendo! Tamanha era a agonia do seu coração. 
Naquela noite vislumbrou o seu antigo lugar e tudo o que lhe atraia. A escola da roça tinha seu atrativo. Dona Emília juntava todas as crianças em uma sala apenas e ali no quadro negro dividia as tarefas para cada ano e todos estavam interessados em aprender. Na sexta feira os próprios alunos limpavam as carteiras, lavavam o chão e varriam os páteos da escola. Era uma festa esse encontro de trabalho em que as crianças exultavam nas atividades de ajudarem-se umas às outras. Naquela noite lembrou da irmã e das conversas entre elas quando se diziam apaixonadas por dois coleguinhas da sala que também eram irmãos. A motivação dessa grande paixão era o estojo dos meninos...um estojo de madeira com dois andares e o lugar separadinho para cada coisa. Um luxo aquele estojo!
E foi assim que a noite passou.
E quando o dia chegou tudo era muito novo e ela estava perdida num turbilhão de pensamentos e faltas e saudades e medos.
Mas o dia chegou e não reconheceu o quanto ela estava insegura.
E foi tentando aprender a nova vida! 

Nenhum comentário: