quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A gente precisava se virar. . .

- Sua escola fica ali oh! Tem que andar um quarteirão, descer a rua até a ponte, atravessá-la, subir aquela rua e lá virar à direita...mais dois quarteirões já estará na Escola Venâncio Ayres. Nada de temores...era preciso. nada de caronas...era andando. E com alegria o percurso era feito diariamente. Medos? Sim...um dia o céu escureceu tanto e o medo da tempestade foi inevitável. Em outros dias naquela ponte havia ali alguns moleques que assobiavam, chamavam a menina maliciosamente...mas ela aprendera a guardar fôlego para aquele momento,  pois se precisasse correria. Nunca precisou...apenas andava olhando fixamente à frente e não ousava dar atenção aos moleques mas tinha uma visão periférica acentuada pois estava preparada para fugir caso houvesse risco.
Alguém soube disso? Não. Nenhuma pessoa sabia de seus medos, de seus problemas, de suas ansiedades. Quando a criança não tem a segurança da família ela se sente tão só a ponto de nunca contar com ninguém. Na hora dói mas isso é um preparo bom para a vida.
Na escola ela recorda da Maria e da Jussara. Duas meninas baixinhas que eram o centro da classe. Maria era aquela aluninha certinha, de caderno impecável. Jussara era a menina revoltada, enciumada, que fazia a panelinha. Não deixava ninguém se aproximar ou ter amizade com a Maria. Caso isso acontecesse, na hora da saída, podia esperar o : _ Vou te pegar!!!
A menina sentou ao lado da carteira de Maria mas aprendeu que não podia tê-la como amiga pois correria riscos na hora da saída. E a classe toda sabia disso , porém, nada fazia e a ninguém contavam. os professores nunca imaginaram que na hora da saída era uma guerra. Essa rivalidade, o buillyng com |Maria.
A vida foi lhe ensinando a ser esperta. Nem tudo lhe era permitido. E nas lembranças dela nada mais restou dessa escola e desse tempo. Não lembra rostos e nem pessoas,  nada , nem ninguém lhe marcou.
Na casa da tia a empregada era chamada de criada. Criada significava "alguém a quem se dá comida, roupas e que trabalha para você em troca desse lugar". Minda era o nome dela. Estava noiva de um negro que era sargento do Exército e todos diziam que ela seria muito feliz. Só ela não acreditava nisso , pois arrumou uma aventura e traiu o seu noivo engravidando de outro...para que fosse julgada e apedrejada por todos. Estava ali o exemplo de uma pessoa que havia jogado fora o seu futuro e as crianças escutavam aquela história pensando que nunca poderiam fazer tal coisa.
E quantas vezes ela viu Minda chorando. E quantas vezes pensou em perguntar porquês mas nunca o fez. Minda também vivia na solidão dos seus dias e representava uma pessoa sem raízes.
Um dia Minda foi embora da casa... grávida, não poderia ficar ali. Tempos de julgamentos e de atos que levavam a atitudes duras. Errar era algo que não se podia tolerar. Disseram que o filho nascera problemático e que ela vivia com muitas dificuldades e que até fome passava. Falatórios que escutou.
E quando chegava da escola depois de ajudar nas obrigações ia até o fundo do quintal e subia no pé da goiabeira. Árvore de galhos finos e retorcidos que lhe aguentava o peso. E ali era o seu mundo...podia pensar livremente, podia deixar as lágrimas rolarem, podia questionar seus porquês. Um lugar escolhido para ser seu. Um templo. Um contato consigo mesmo. O seu lugarzinho no mundo. Ah se o pé das goiabas pudesse dizer tudo o que viu, falar do que sentiu... diria que havia sorrisos e lágrimas dentro daquele coração de menina. Sabia que era preciso ser firme e forte e que haveria de vencer cada obstáculo e não ter medo do outro dia. Logo uma voz, o seu nome, e descia da goiabeira correndo. Era preciso lembrar que morar na casa dos outros precisava estar sempre disposto para ser rápido quando solicitado e  para ajudar.


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